sábado, 13 de setembro de 2014

A FLORAÇÃO DA VIDEIRA




                A flor da videira passa por três processos na sua formação: (a) formação do embrião floral; (b) diferenciação da inflorescência e (c) formação das flores. O embrião floral é formado nesta estação e pode se desenvolver em inflorescência ou em gavinha. Geralmente as flores são formadas da inflorescência na abertura das gemas na estação seguinte.

                Após a brotação, as inflorescências aparecem rapidamente entre as primeiras folhas. A maioria das cultivares a inserção da primeira inflorescência situa-se entre a 3a e 4a folha, algumas pode aparecer na segunda e outras na quarta. Após uma a duas semanas, se as condições climáticas e o vigor do ramo forem favoráveis, os botões florais, que se apresenta num amontoado, se separam e adquirem a forma definitiva.

                A floração ocorre quando a caliptra se abre expondo os estames (órgãos masculinos) e o pistilo (órgão feminino). Isto ocorre normalmente 6 a 8 semanas após a brotação, dependendo das condições climáticas, e dura normalmente ao redor de duas semanas. Imediatamente após a queda da caliptra, as anteras, localizadas nos estames, se abrem e libertam os grãos de pólen. Alguns destes grãos aderem-se na substancias liberadas pelo estigma localizado na ponta do pistilo. A secreção estimática consiste de açúcar, proteínas e nutrientes minerais essências ao desenvolvimento do tubo polínico. Se as condições climáticas são favoráveis, os grãos de pólen germinam e formam o tubo polínico que penetra no estigma, percorrendo todo o pistilo até alcançar o ovulo e então ocorrerá a fecundação.

                Condições climáticas desfavoráveis durante o período de floração causam má fecundação das flores. Isto pode ser devido à interferência no processo fotossintético (causam redução momentânea de açúcar), ou pela ação direta na flor, como ocorre pelo excesso de chuva que causa a aglomeração dos grãos de pólen. O calor é necessário para favorecer a abertura das flores e a germinação do pólen. Para ocorrer uma boa floração é necessário que a temperatura permaneça ente 15 oC e 25 oC durante o período de floração.

                O fator climático tem grande influência na fecundação da flor e formação do fruto. Com temperaturas abaixo de 15,6 oC ou acima de 37,8 oC há inibição da formação do tubo polínico e consequentemente não ocorre à fecundação do ovulo. Baixas temperaturas estão associadas a não abertura da caliptra, enquanto que tanto as baixas como nas altas há menor fecundação do ovulo por dificultar o desenvolvimento do tubo polínico e a própria fecundação do ovulo. Chuvas durante a floração, ou alta umidade, também reduzem a fecundação do óvulo por impedir a completa abertura da caliptra. A chuva pode também diluir o fluido estimático e isto interfere na germinação do grão de pólen.

 

 

BIBLIOGRAFIA

DOKOOZLIAN, N. K. – Grape Berry Growth and Development.

GALET, P – Pecis de Viticulture Imprimierie De’han, Monpellier, 1988.

MILLARDET, A. – Essais sur l’hybridation de la vigne. Mém. Soc. Sc. Phys. et Nat. Bordeaux. 1981.

SRINIVASAN, C. and MULLINS, M. – Control of Flowering in the Grapevine (Vitis vinifera L.). Department of Agronomy and Horticultural Science, University of Sydnei, Australia. 2006.

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

PERÍODO DA BROTAÇÃO DA VIDEIRA

               No final do inverno ou inicio da primavera quando a temperatura aumenta e as gemas são rehidratadas (chuva, neblina, alta umidade relativa do ar), elas gradualmente desaclimatam e perdem a resistência a baixas temperaturas. As enzimas dependentes da temperatura começam a ser ativadas, seu grau de ativação dobra a cada 10 oC de aumento da temperatura.  Com o aquecimento do solo, a atividade radicular é ativada e o sistema capilar conduz a água para o tronco e parte aérea, resultando na circulação da seiva e aumentando a hidratação das gemas. As gemas incham e iniciam a nova conexão vascular.
                No interior das gemas dormentes encontra-se um diminuto broto totalmente formado (gema primária), composto pelos primórdios florais e alguns nós com os primórdios foliares. Quando este broto inicia a sua expansão, o seu meristema apical torna-se ativo e inicia a formação das novas folhinhas. Se esta gema primária for danificada, as gemas menores (secundárias ou terciárias) são ativadas. Estas gemas secundárias e terciárias carregam algumas folhas e alguns cachos ou não e vão formar o dossel vegetativo, mas com pouca produção.
                        A ponta apical do pequeno broto em formação produz auxinas, que é um hormônio que ativa a reativação e o desenvolvimento do sistema vascular. Estas auxinas enviam sinais para as gemas emergentes que resulta no desenvolvimento do novo sistema vascular, unindo a gema ao ramo e estimulam o ramo a ativar a divisão celular no cambio. Este estimulo expande-se via o cambio para os braços e tronco; e assim vão se formar os novos vasos do xilema e do floema. Se as gemas e o tronco forem danificados pelo frio do inverno este processo pode ser interrompido causando a interrupção da conectividade entre as gemas e as raízes.
                Na primavera, o solo normalmente se aquece mais lentamente do que o ar, então a formação do novo xilema e floema do sistema radicular também sofrem atraso em relação ao desenvolvimento aéreo. O desenvolvimento radicular também é dependente do sinal da auxina da ponta de crescimento, e o sistema vascular – da ponta de crescimento para as raízes – somente é reativado plenamente uma semana ou duas após a floração. Por este motivo, a nova brotação é dependente das reservas existentes nos braços, tronco e raízes. O nitrogênio e o amido necessários para o desenvolvimento inicial provem dos braços e tronco (1/3) e raízes (2/3). Amido e nitrogênio armazenados nos tecidos são mobilizados no período da brotação até a floração, inicialmente nos tecidos dos ramos próximo as gemas. Durante a floração a nova vegetação já é capaz de produzir suficiente carboidratos para suportar o seu crescimento. O sistema vascular já está conectado e apto a absorver os nutrientes, inclusive o nitrogênio, e água necessária para a vegetação.
Fatores que afetam o período de abertura das gemas
Temperatura – O efeito da temperatura é predominante e provavelmente a soma das temperaturas para cada variedade. Alta temperatura na parte final do inverno adianta o período de inicio da brotação. O numero de gemas brotadas por dia é grandemente correlacionada com a temperatura do ar no dia da sua abertura.
Variedade – Independente do clima e das condições sazonais, a ordem de brotação das diferentes variedades tendem a ser mantida. Por exemplo, Chardonnay continua brotando mais cedo, enquanto o Cabernet Sauvignon continua brotando mais tarde.
Temperatura na região das raízes – A data da brotação das gemas é positivamente relacionada com a temperatura do solo na região das raízes. Temperatura do solo de 25 oC induz a brotação mais precoce do que a 12 oC. Esta relação tem influência na escolha do local do vinhedo e no manejo do solo. Isto porque solo bem drenado, rochoso ou calcárico aquecem mais rapidamente na primavera do que o úmido e argilosos, isto pode ser uma alternativa para aumentar o comprimento do ciclo vegetativo e para aumentar o período de maturação.
Outros fatores – Genótipo do porta-enxerto, praticas culturais, época da poda e o uso de reguladores de crescimento como a cianamida hidrogenada podem influenciar na época de brotação.


BIBLIOGRAFIA
AWRI – Bud dormancy an budburst. Research to Practice. www.awri.com.au
HELLMAN, Ed. – Grapevine Cold Hardiness. Texas Cooperative Extension. 2007.
HOWELL, G.S.  – Grapevine cold hardiness: mechanisms of cold acclimation, mid-winter hardiness maintenance, and spring deacclimation. Proceedings of the ASEV Fiftieth Anniversary Meeting Seattle, Washington. American Society of Enology and Viticulture, Davis, Calif. 2000.
MARTINSON, T. and GOFFINET, M.  – How Grapevines Reconnect in the Spring. Cornell University. College of Agriculture and Life Sciences Viticulture and enology Program.
MARTINSON, T. – How Grapevine Buds Gain and Lose cold-Hardiness. Cornell University. College of Agriculture and Life Sciences Viticulture and enology Program. 2007.
MULLINS, M.G., BOUQUET, A. and WILLIANS, L.E. – Biology of grapevine. Cambridge University Press, Cambridge. 1992.
WAMPLE, R.L., HARTLEY, S. and MILLS, L. – Dynamics of grapevine cold hardiness. Proceedings  of the ASEV Fiftieth Anniversary Meeting Seattle, Washington. American Society of Enology and Viticulture, Davis, Calif. 2000.


terça-feira, 3 de junho de 2014

PERÍODO DE DORMÊNCIA DA VIDEIRA

                      No outono, a videira entra em dormência – estágio em que não há folhas ou atividades de crescimento, período que se estende até a abertura das gemas na estação seguinte. Apesar deste estágio aparentar inatividade, ele pode ser um período critico para a videira, se exposta a muito baixas temperaturas. A habilidade da videira em estágio de dormência tolerar baixa temperatura significa a sua resistência ao frio. A resistência ao frio é uma condição muito dinâmica, influenciada pelo ambiente e as condições de desenvolvimento, e varia conforme a variedade, os tecidos e da estação (Hellman, 2007).
               Howell (2000) descreve três estágios de dormência: (a) aclimatação é o período de transição entre a condição de não resistência a plena resistência ao frio. Aclimatação é um processo gradual, que inicia próximo ao inicio da maturação da uva (veraison) e continua após a queda das folhas quando as temperaturas são baixas (Martinson, 2007). A combinação da diminuição das horas de sol (fotoperíodo) e a queda da temperatura no outono são fatores importantes que influenciam a aclimatação e a resistência ao frio (Wample, et al., 2000). O processo da aclimatação envolve simultaneamente diversas atividades que coletivamente aumentam a resistência ao frio. Diminui o conteúdo de água em vários tecidos, enquanto aumenta a concentração de solutos nas células, a permeabilidade da membrana, e a estabilidade térmica de varias enzimas (Mullins, et al., 1992). (b) metade do inverno, período de maior severidade e grande resistência ao frio. Após passar pelas baixas temperaturas na metade do inverno, as gemas continuam a ganhar resistência ao frio através da desidratação e a transferência de água para os espaços intercelulares. Se ocorrer a formação de gelo fora das células, o diferencial de pressão forçará a saída de água do interior das células para os cristais de gelo, não danificando as gemas (Martinson, 2007). (c) desaclimatação, período de transição entre a plena resistência ao frio a não resistência e o crescimento ativo da nova vegetação. Após alcançar o máximo de resistência ao frio na metade do inverno, as gemas passam pelo processo de desaclimatação em resposta a elevação da temperatura -   a desaclimatação é mais rápida do que o processo de aclimatação. Temperatura mais alta aumenta a umidade ambiental, e os tecidos da videira gradualmente absorvem água. Aumentando a temperatura do solo, o efeito capilar faz com que a água penetre nas raízes e a seiva começa a circular. Por ocasião do inchamento das gemas, as gemas reidratadas são vulneráveis ao frio e bastam alguns graus abaixo do ponto de congelamento para danificá-las (Martinson, 2007).
                A resistência ao frio depende das características genéticas da espécie e da variedade de videira. O potencial genético da resistência ao frio depende das condições ambientais e das condições em que as videiras se desenvolveram na estação anterior. Práticas de manejo inadequadas ou condições climáticas adversas podem inibir o processo de aclimatação, resultando em reduzida resistência ao frio. A aclimatação é favorecida quando as folhas e os ramos se desenvolveram em boa exposição solar, isto ocasiona boa maturação e com relativa baixa concentração de água (Mullins, et al., 1992). Segundo Howell (2000) a resistência ao frio varia consideravelmente entre as variedades. Reduzida resistência é associada à grande, densa copa (sombreamento); ramos com entrenós longos e/ou grossos. Além disso, excesso de carga de uva ou desfolha (queda prematura das folhas devido a estresse ou doenças) inibe a aclimatação, provavelmente devido a reduzir a atividade fotossintética (Mullins, et al., 1992).
   As videiras não estão totalmente inativas durante a fase de dormência. Elas não fotossintetizam por que não tem folhas, mas elas continuam respirando para manter as funções básicas do metabolismo. A sua fonte de energia neste estágio são os carboidratos estocados no ciclo anterior (a maioria amido) nas raízes, tronco e braços. As videiras em estado de dormência passam a viver de suas reservas após a queda das folhas. A nova brotação, no ciclo vegetativo seguinte, é completamente dependente destas reservas durante o primeiro mês (AWRI).


BIBLIOGRAFIA
AWRI – Bud dormancy an budburst. Research to Practice. www.awri.com.au
HELLMAN, Ed. – Grapevine Cold Hardiness. Texas Cooperative Extension. 2007.
HOWELL, G.S.  – Grapevine cold hardiness: mechanisms of cold acclimation, mid-winter hardiness maintenance, and spring deacclimation. Proceedings of the ASEV Fiftieth Anniversary Meeting Seattle, Washington. American Society of Enology and Viticulture, Davis, Calif. 2000.
MARTINSON, T. – How Grapevine Buds Gain and Lose cold-Hardiness. Cornell University. College of Agriculture and Life Sciences Viticulture and enology Program. 2007.
MULLINS, M.G., BOUQUET, A. and WILLIANS, L.E. – Biology of grapevine. Cambridge University Press, Cambridge. 1992.

WAMPLE, R.L., HARTLEY, S. and MILLS, L. – Dynamics of grapevine cold hardiness. Proceedings  of the ASEV Fiftieth Anniversary Meeting Seattle, Washington. American Society of Enology and Viticulture, Davis, Calif. 2000.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PODRIDÃO DA UVA MADURA


                Esta doença é causada pelo fungo Glomerella cingulata (Stonem)  Spauld e Schrenk, fase perfeita ou sexual de Colletotrichum gloeosporioides (Penz) Penz e Sacc,  fase imperfeita ou assexual.

                O fungo sobrevive de um ciclo vegetativo da videira a outro nos frutos mumificados e nos pedicelos que são a fonte de inoculo primário. Durante a primavera ocorrendo chuvas os conídios produzidos pelos micélios sobreviventes causam a infecção primaria. Os conídios causam todas as infecções secundárias durante todas as estações, tão logo a temperatura e umidade tornam-se favoráveis, sendo que a disseminação ocorre pela ação da chuva, vento, animais e insetos.

A produção de conídios é abundante durante a primavera, mas decresce no verão. Os frutos são suscetíveis a infecção durante todos os estágios de desenvolvimento desde as bagas recém formadas até a maturação, mas não apresentam nenhum sintoma antes da maturação. O desenvolvimento da doença é favorecido com altas temperaturas (25 a 30 oC) e umidade.  A hifa penetra na cutícula da uva e permanece latente até a uva iniciar a maturação, quando então aparecem os sintomas primários. Quando os frutos estão maduros a hifa coloniza o pericarpo inter e intracelular e os acérvulos são formados sobre a superfície do fruto. Estudos indicam que o processo da infecção desde a germinação dos conídios, formação de apressório e penetração em bagas em desenvolvimento ocorrem dentro de 48 a 72 horas, entretanto o patógeno permanece em estado latente até a maturação dos frutos.

 A literatura mostra que há dois picos de liberação de conídios, no inicio da primavera, quando os frutos mumificados, da safra anterior, estão presentes e, durante a maturação da uva, devido à presença de frutos em estado de apodrecimento.

                O desenvolvimento de epidemias da doença é restringido pela disponibilidade de água livre em todas as fases do ciclo do patógeno. Não somente a esporulação requer alta umidade, mas também a liberação e a dispersão dos esporos, molhamento no mínimo por 4 horas e temperatura entre 20 a 25 oC são condições requeridas para a germinação e a infecção.

                As perdas causadas por esta doença variam de região para região e conforme a suscetibilidade da cultivar. A sua incidência é maior em anos com temperaturas elevadas e muita umidade durante o período de maturação da uva. Além da uva este fungo ataca maçã, moranguinhos, e outras frutas e vegetais.

Sintomas

                   Os primeiros sintomas, nos frutos, são o aparecimento de pequenas manchas concêntricas de coloração escura. Posteriormente estas manchas podem se alargar tomando toda a baga. Sobre as manchas apodrecidas forma-se uma camada de fungo de coloração salmão. Mais tarde a massa de esporos torna-se escura (marrom-avermelhada). As bagas apodrecidas apresentam depressões no ponto de infecção e gradualmente tornam-se murchas e mumificam, podendo permanecer no cacho ou cair.

                Não se conhece sintomas desta doença sobre outros órgãos verdes da planta.

 
 
 
Controle
                Algumas medidas preventivas são importantes para reduzir a fonte de inoculo, como a retirada dos cachos com bagas mumificadas logo após a colheita e aplicação de calda bordalesa durante o inverno. Durante o ciclo vegetativo: boa aeração e insolação dos cachos; realizar poda verde; utilizar adubação adequada evitando o excesso de nitrogênio; evitar ferimentos nas bagas; proporcionar um bom distanciamento dos cachos; retirar as folhas próximas aos cachos, mas evitando a exposição direta dos cachos ao sol.
                Tratamento com fungicidas específicos devem começar logo após a floração e seguir até próximo a colheita. No controle químico os produtos indicados são: fungicidas de contato – clorotalonil, folpet, folpan, dithianon, mancozeb; Fungicidas de profundidade – famoxadone e pyraclostrobina e fungicidas sistêmicos – tiofanato metílico e tebuconazole.       
                O controle químico deve ser efetuado nos seguintes estágios:
a)   – após a floração, grão limpo – aplicar um fungicida sistêmico.
b)   -  inicio da compactação do cacho e inicio da maturação – aplicar um fungicida de profundidade.
c)   – a partir do inicio da maturação aplicar produtos de contato que ao mesmo tempo servirão para o controle do míldio, sempre respeitando o período de carência de cada produto.
   
BIBLIOGRAFIA
BERTON, O -  Avaliação da eficiência de Dithane e Cercap com e sem Agróleo no     controle da    Mancha Foliar da Gala.    Epagri/Estação Experimental de          Caçador.
 
GARRIDO, L. R. e SONEGO, O.R. – Podridão da Uva Madura ou Podridão de Glomerella – Biologia, Epidemiologia e Controle. EMBRAPA-CNPUV, Bento Gonçalves, 2004.
PEARSON, R.C. and GOHEEN, A.C. – Compendium of grape diseases. 1st ed. American Phytopathological Society Press, St. Paul, Minnesota, USA. 1988.
 
 
 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

VITICULTURA - Produtividade X Qualidade



                   É claro que a produtividade de um vinhedo influi na qualidade da uva e do vinho, porém frequentemente caímos no erro de analisar a relação entre estes dois parâmetros como se tratasse de uma simples equação matemática, própria das ciências exatas, quando, na realidade, trata-se de um complexo processo biológico. Como sabemos, os processos biológicos são governados ou regulados por numerosos fatores que interagem entre si.               
                O conceito geral é que alta produtividade reduz a qualidade da fruta. Em parte isto é verdade, quando a carga de uva em uma videira é muito alta, porque atrasa a acumulação de açúcar na fruta se comparado com aquelas plantas com menos carga. Sem dúvida, existem antecedentes que indicam que o nível compatível de carga por planta não afeta a acumulação de açúcar e a qualidade da fruta. O que devemos observar é o nível de carga específico que uma planta pode amadurecer antes que um rendimento maior atrase a maturação e afete a qualidade.
                O significado fisiológico é que a qualidade da composição da uva depende mais do equilíbrio entre as folhas e a carga de uva do que o nível absoluto da carga de uva por cepa. Isto porque a produtividade não é o único elemento, talvez nem seja o mais importante, para se conseguir um vinho de boa qualidade. Um vinhedo com baixa produtividade por planta teoricamente deveria produzir alta qualidade, mas existem diversos outros fatores que podem interferir na qualidade desta uva. Dentre estes fatores devemos considerar a variedade, o clone, o sistema de condução, a idade da planta, o mesoclima do lugar, as características do solo, etc, que determinam o potencial de qualidade deste vinhedo. Nem sempre baixa produtividade é sinônimo de alta qualidade, porque pode acontecer de deixarmos poucos racimos numa planta e, no entanto o número de folhas é alto e então ocorre demasiada acumulação de açúcar na uva  e não conseguiremos uma correta maturação fisiológica. Por outro lado, se na poda deixarmos poucas gemas sobre a planta é possível que tenhamos excesso de vigor dos ramos e apareça aroma herbáceo no vinho.
                A qualidade da uva, consequentemente do vinho, é ditada pela correta utilização da energia solar pela planta, mediante a correta disposição das folhas. Os melhores vinhos são obtidos naqueles vinhedos que foram corretamente conduzidos de modo que conseguiram otimizar a captação da luz solar e onde existe um perfeito equilíbrio entre a área foliar e a produtividade.

BIBLIOGRAFIA
BRAVDO, B. A; HEPNER, Y.; LOINGER, C.; COHEN, S. and TABACAMAN, H. – Effect of crop level and load on growth, yield, must and wine composition and quality of Cabernet Sauvignon. Am. J. enol. Vatic. 36: 125-131, 1985.
FREEMAN, B. F. and KLIEWER, W. M. – Effect of irrigation, crop level and potassium fertilization on Carignane vines. II Grape and wine quality. Am. J. Enol. Vitic. 34(3): 197-207. 1983.
OJEDA, H. -  Como se relaciona la calidad de La uva y Del vino com El rendimiento del viñedo?

PONI, S. – Influencia de la Gestión de la Vegetación em la Calidad de la Uva. Instituto de Fruti-Viticoltura, Universitá Cattolica Del Sacro Cuore. Piacenza, Italia. Revisto Enologia 4. 2008

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Má fecundação das flores da videria

                         Numa única inflorescência existem centenas de flores, mas nem todas irão formar frutos. Em média somente 50% destas flores se transformarão em frutos. Se ocorrer uma percentagem maior se formará um cacho compacto, aumentando o risco de desenvolver podridões, especialmente nas regiões com alta umidade durante a maturação. Por outro lado, se uma percentagem menor de flores for fecundada se desenvolverá um cacho ralo.
                O abortamento das flores pode ocorrer por vários motivos e por diferentes formas. Pode acontecer a perda total da inflorescência, conhecida como necrose da inflorescência, ou a perda individual de flores, chamada de necrose das flores. Algumas inflorescências podem cair antes do florescimento, enquanto que outras podem abortar no florescimento. Finalmente, pode também ocorrer que algumas flores desenvolvam pequenas bagas que não amadurecem e podem cair antes da colheita, ou permanecerem no cacho.
                O desenvolvimento da flor inicia logo após a abertura da gema e demora de seis a oito semanas para estar pronta para a floração. Condições adversas que ocorram durante este período podem interferir no seu desenvolvimento e causar o abortamento na floração.
                Os eventos causadores do abortamento das flores podem estar associados a: nutrição da planta, vigor da planta, clima e a outros eventos prejudiciais.
Nutrição da planta = A pesquisa tem demonstrado o impacto que a nutrição causa sobre a formação de gemas frutíferas (numero de flores por cacho, cachos por gema e cachos por ramo) desenvolvidas durante o ciclo vegetativo anterior a floração e na diferenciação floral que ocorre no ciclo vegetativo da floração. A concentração de carbono e de nitrogênio existentes na planta demonstrou ser uma potencial causa do abortamento de flores e de necrose da inflorescência. A influência da relação carbono / nitrogênio na videira é complexa e ainda não completamente conhecida. Entretanto, sabe-se que teores muito altos ou baixos de nitrogênio podem induzir a baixa fecundação das flores e necrose da inflorescência. Isto não ocorre somente devido a concentração de nitrogênio nos tecidos, mas sim a relação existente entre carbono e nitrogênio, pois isto se refere diretamente ao vigor da planta.
                Deficiência de micronutrientes como boro e zinco pode também resultar em baixa fecundação das flores e estes micronutrientes são especialmente importantes no inicio do crescimento dos sarmentos. O boro é muito importante durante a floração por interferir no desenvolvimento do tubo polínico, necessário para a fertilização da flor.
                Estresse hídrico próximo ao período da floração também tem relação com a baixa fecundação das flores e isto pode ser explicado por causar redução no crescimento do broto que vai originar baixa absorção de nutrientes.
Vigor da planta = As videiras com excesso de vigor tendem a ter alta concentração de nitrogênio em seus tecidos, diminuindo a relação carbono / nitrogênio. Contrariamente, videira fraca tem baixo teor de nitrogênio e alto de carbono, alta relação carbono / nitrogênio. Em ambos os casos há uma relação desequilibrada entre o carbono e o nitrogênio e isto tende a induzir fraca fecundação das flores. Isto também causa uma competição entre os ramos e as inflorescências. Videiras muito vigorosas – os ramos podem competir com as inflorescências por carboidratos na pré-floração e pode reduzir a fecundação das flores. Entretanto, videira com fraco vigor tem poucas reservas de carbono e nitrogênio, devido ao fraco desenvolvimento. Esta deficiência de substancias de reserva, nas videiras fracas, não vai abastecer as flores e isto causa baixa fecundação. Por estes motivos é importante regular o vigor da videira para se obter boa fecundação das flores, deve existir um balanço entre o sistema vegetativo e reprodutivo. O segredo é ter videiras moderadamente vigorosas.
Clima = baixas temperaturas e alta umidade, durante a floração, podem prejudicar a fecundação das flores; embora a interferência seja diferente em relação ao período em que ocorram (na iniciação floral, no desenvolvimento, na floração e na formação dos frutos). Frio e alta umidade na pré-floração pode causar problemas no desenvolvimento da flor. Estes fatores climáticos interferem na relação carbono / nitrogênio, particularmente se ocorrerem no estágio inicial do ciclo vegetativo. Se ocorrer baixas temperaturas durante a floração, retarda a floração e provavelmente ocasiona abortamento de flores.       
                        O fator climático tem grande influência na fecundação da flor e formação do fruto. Com temperaturas abaixo de 15,6 oC ou acima de 37,8 oC há inibição da formação do tubo polínico e consequentemente não ocorre à fecundação do ovulo. Baixas temperaturas estão associadas a não abertura da caliptra, enquanto que tanto nas baixas como nas altas há menor fecundação do ovulo por dificultar o desenvolvimento do tubo polínico e a própria fecundação do ovulo. Chuvas durante a floração, ou alta umidade, também reduzem a fecundação do óvulo por impedir a completa abertura da caliptra. A chuva pode também diluir o fluido estimático e isto interfere na germinação do grão de pólen.
Outros eventos prejudiciais = qualquer evento que cause grandes danos a copa (folhas) da videira pode induzir a baixa fertilidade das flores. Nestes eventos se incluem todos os que possam causar a desfolhação precoce da videira. Após a colheita os carboidratos elaborados nas folhas são armazenados no tronco e raízes, formando as substancias de reserva, e no outono, antes da queda das folhas, transferem os nutrientes armazenados nas folhas para o tronco e raízes para se incorporarem as reservas. Se ocorrer qualquer evento que cause a desfolhação precocemente, pode evitar esta transferência de nutrientes e carboidratos deixando as videiras com poucas reservas para a primavera seguinte. Assim como, danos nas folhas no inicio do ciclo vegetativo podem induzir a fraco desenvolvimento floral. Ambos os casos, ocasionam baixa fecundação das flores por reduzir a assimilação de carbono e a sua estocagem.


Bibliografia consultada
DOKOOZLIAN, N. K. – Grape Berry Growth and Development.
GALET, P – Pecis de Viticulture. Imprimierie De’han, Monpellier, 1988.
MAY, P. - Flowering and Fruitset in Grapevines. Adelaide: Lythrum Press. 2004.
SKINKIS, P – Causes of poor fruit set in grapes. Oregon State Univirsity. 2013.
 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MÍLDIO DA VIDEIRA

                            A doença é causada pelo fungo Plasmopora vitícola (Berk & Curt).
                O fungo hiberna sob a forma de oósporos no interior das folhas infectadas e caídas sobre o solo e pode, também, passar o inverno na forma de micélio dormente sobre os sarmentos atacados. Estes esporos são muito resistentes e podem sobreviver por mais de cinco anos. Nas manchas de Míldio existentes nas folhas no final do ciclo, a produção de oósporos pode acontecer com qualquer temperatura, mas parece que ocorre preferencialmente quando há pouca umidade, porque  neste caso, não é possível a esporulação, ou então quando as folhas estão em senescência. A quantidade de oósporos produzida é extremamente alta, facilmente pode alcançar 250/mm2. Estes esporos amadurecem durante o inverno e somente germinam rapidamente, no inicio do ciclo vegetativo da videira, formando esporângio quando expostos a um filme de água.
                Na primavera quando a temperatura do solo estiver ao redor de 12 oC a 13 oC e umidade, ocorre à germinação do oósporo formando o esporângio. Uma vez que o esporângio  se desenvolveu, libera os zoósporos que são transportados para as folhas novas pela ação dos pingos da chuva ou pelo vento.
                A primeira infecção somente ocorre quando a temperatura mínima do ar estiver acima de 10 oC, com a queda de no mínimo 10 mm de chuva nas ultimas 48 horas e que as folhas tenham no mínimo 6 a 8 cm2 de área (isto corresponde, aproximadamente, ao comprimento do broto de 10 cm).
                Uma vez os zoósporos caindo sobre a folha, por possuir cílios que se movimentam, incistam-se no estômato da mesma e penetram, instalando-se na câmara estomática, daí o pro-micélio se expande através do espaço intercelular colonizando o tecido do hospedeiro. Sob condições favoráveis de temperatura e umidade o tempo decorrido entre a penetração e a germinação é de 90 minutos.
                O tempo decorrido entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sintomas (mancha de óleo na parte superior da folha) é de aproximadamente 4 dias, dependendo da idade da folha, cultivar, temperatura e umidade. Isto ocorre porque o micélio, depois de certo período, chamado de incubação, destroem os cloroplastos, surgindo então à mancha amarelada (mancha de óleo), e cerca de um a três dias após o aparecimento da mancha de óleo surge à mancha de conídios na parte inferior da folha. Mas para que isto ocorra é necessário que a temperatura mínima esteja ao redor de 14 oC e umidade relativa acima de 80%, a partir disto poderão ocorrer às infecções secundárias.


               Todos os fatores que contribuem para aumentar o teor de água no solo, ar e planta favorecem o desenvolvimento do Míldio. Dificilmente ocorre infecção se a umidade do ar for inferior a 75%, porém, ela será grande quando o período de água livre (chuva, orvalho ou neblina) for maior de três horas e sob condições de céu encoberto.
       O fungo incide sobre todos os órgãos verdes da planta, preferencialmente naqueles mais tenros, desenvolvendo um micélio que neles penetra para absorver a seiva.
                Dependendo da temperatura, umidade e a suscetibilidade da variedade, o ciclo da doença completa-se em 4 a 18 dias. Havendo elevação de temperatura e período seco, o míldio entra em dormência reaparecendo quando as condições climáticas forem favoráveis.
                O ataque do míldio sobre a inflorescência (antes da floração) ou no cacho recém formado (logo após a floração), causa perda elevada de produção. Quando ocorre sobre a inflorescência a danifica deixando-a em forma de gancho. Na floração, o patógeno provoca o escurecimento e destruição das flores afetadas, sintomas muito semelhantes aos ocasionados pela antracnose. Nos estádios da pré-floração e em bagas pequenas, o fungo penetra pelos estômatos, causando escurecimento e secagem destes órgãos, observando- se uma eflorescência branca que é a frutificação do fungo.  

                 Controle
Algumas medidas profiláticas ligadas à condução da videira e que podem ser utilizadas para a prevenção do Míldio:
- Favorecer uma boa drenagem do solo evitando a formação de poças de água;
- Controlar o vigor excessivo das videiras, através de uma correta adubação, especialmente atenção com o excesso de nitrogênio;
- Eliminar por ocasião da poda hibernal os ramos ladrões da base das cepas (fonte primária para o ataque do Míldio);
- Realizar poda verde precoce a fim de melhorar o arejamento e a insolação dos cachos.
Tratamento químico = Até que ocorra a infecção pelo Míldio, todos os produtos são eficientes, isto é; como preventivos. A partir da infestação, até 24 ou 48 horas após, pode-se obter o controle mediante o emprego de fungicidas translaminares ou sistêmicos.
                Quando aparecer a mancha amarela (mancha de óleo) na superfície superior da folha, mas antes do aparecimento da mancha branca na face inferior, obtem-se bom controle mediante o uso de fungicidas de ação antiesporulante, como é o caso do Dimetomorf, Fenamidona e Iprovalicarb.
Como estratégia de controle, no inicio do ciclo vegetativo da videira quando a área foliar ainda é pequena, a temperatura não está dentro da faixa ótima para o desenvolvimento do míldio e a quantidade de inoculo é pequena, embora ocorram chuvas, os estragos que podem ser causados pelas infecções primárias são insignificantes. Nesta fase corresponde aos primeiros tratamentos,  às intervenções podem ser feitas com produtos de contato, mesmo com tempo chuvoso. Embora não seja errado o uso de produtos sistêmicos ou translaminares. Entretanto, devemos considerar que estamos usando produtos sistêmicos ou translaminares numa fase que não são necessários, comprometendo a sua utilização mais tarde (devido o risco de resistência é aconselhável usá-los 3 a 4 vezes por ciclo vegetativo) e além disso, são mais caros. Numa fase posterior que vai dos cachos separados ao inicio da floração, podemos usar qualquer tipo de fungicida, dependendo das condições climáticas: tempo seco e sem míldio visível usar fungicidas de contato; tempo úmido, embora sem a presença de míldio, é aconselhável usar produtos sistêmicos ou translaminares.
                Na fase de floração é aconselhável o uso de produtos sistêmicos ou translaminares, a não ser que o tempo seja seco e então podemos usar produtos de contato.
                A partir do inicio da formação do grão, que geralmente coincide com o final de Outubro, entramos num período critico onde a ocorrência de míldio é muito grande, devido às condições de umidade e temperatura, e este período se estende normalmente até final de Novembro. Neste período devemos seguir tratando com produtos de ação sistêmica ou translaminar. A partir desta data, final de Novembro, se o tempo for seco podemos tratar com produtos de contato, mas se o tempo for chuvoso é aconselhável utilizar produtos translaminares. Sempre observando que a partir do grão tamanho de ervilha, como neste estágio a transpiração deste órgão é muito pequena, os produtos sistêmicos terão pouca ação no controle da doença sobre o grão.
                Dentre os fungicidas recomendados para o controle do Míldio encontramos:
                - Produtos de contato = Os fungicidas protetores (de contato) formam uma camada na superfície do órgão tratado e protegem a planta da infecção pelo patógeno. Quando o esporo do fungo cair na superfície foliar e absorver água para germinar, absorve também o fungicida e a germinação é impedida. Os principais produtos são =  dithianon, captan, folpet, mancozeb, hidróxido de cobre, oxicloreto de cobre, metiran, propineb, maneb e sulfato de cobre.
                - Produtos translaminares ou de profundidade =  
                - Penetrante local (mesostêmicos) = o fungicida move-se somente em pequena distancia, somente penetra na cera cuticular e permanece lá = Famoxadona e Zoxamida
                - Penetrante translaminar (Loco-sistêmicos, de profundidade ou translaminares) = pode se mover através da cutícula entre as células até o lado oposto da folha. = azoxistrobina, cymoxanil, fenamidone, iprovalicarbe e piraclostrobina.
                - Produtos sistêmicos =  movem-se através das células e seguindo a rota da transpiração. Os sistêmicos podem se mover para cima e para baixo na planta. Vários fungicidas são considerados sistêmicos. Devemos lembrar que o fungicida sistêmico tem limitadas habilidades curativas. Os fungicidas penetrantes somente param ou reduzem a infecção nas primeiras 24 ou 72 horas após a penetração do fungo. Portanto, melhor controle é conseguido quando os fungicidas penetrantes são aplicados preventivamente =  benalaxil, metalaxil e fosetil alumínio.



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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